“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. (…) E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu, também, a seu marido, e ele comeu com ela. (…) E Deus disse: (…) Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? (…) E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” Génesis 2,3
E foi assim que tudo começou… Bicho de aguçada curiosidade, o Homem desafia o seu Criador e deixa-se conduzir pela suculenta vontade de saber, conhecer e indagar. A mulher, espírito livre, toma a iniciativa e o homem, de carácter menos impetuoso, deixa-se guiar, preso pelas amarras da sedução. Castigo penoso se lhes aplicou. Em tormento, desapossados da graça purificadora, trilharam os sinuosos caminhos do Mundo terreno e cumpriram, agora sim, a suprema indicação.
Singela história fantasiada? Reflexo inequívoco da natureza humana? Uma coisa é certa não se pode dizer que este tema já foi árvore que deu fruto! Muitas maçãs rolaram pelo chão e agora, o fruto, embora não tenha ainda cumprido a trajectória newtoniana e se mantenha imaculadamente preso na árvore, esconde um interior em completo estado de putrefacção.
Tentadora, sem-abrigo, feiticeira, irremediavelmente imperfeita, a mulher travou duras batalhas com a sociedade, com a religião, com a mentalidade dos seus pares e consigo própria. Doce gosto tem cada batalha vencida. Não, não me refiro a disparatadas guerras dos sexos. Falo antes de pequenas conquistas que foram paulatinamente alcançadas. Primeiro exercício: alcançar o respeito próprio e acreditar que não se é a fonte do vício e do pecado. Árdua tarefa quando todos, apesar de provarem o sumarento fruto, lançam pedras, incriminações, palavras que funcionam como um véu, disfarçando as inseguranças, cobrindo as imperfeições dos que as proferem.
Segundo: uma vez alcançado o amor-próprio há que convencer a envolvência que a suprema ocorrência biológica não sintetiza o feminino. Sufocante espartilho impede que se respire a liberdade. Funesta sina que se disfarça com generosas doses de “rouge” e pó-de-arroz. Envolvência não convencida. Auditório difícil de persuadir sem recorrer a mecanismos falaciosos.
Terceiro: Nova investida. O pó-de-arroz dá lugar ao carvão que se entranha na pele e se mistura com a fragrância do trabalho. Mãos de mudança entretêm-se brincando com a cigarrilha ao canto da boca e penteando as patilhas desalinhadas. O objectivo define-se com grande clareza. Carrapito no cimo da inteligência. Montras estilhaçadas pela força das gargantas reivindicativas afinadas em uníssono. A urna que por um lado encerra o passado cadavérico, por outro abre-se revelando um futuro mais participativo.
Não esquecendo a árvore, que aqui é adoptada como fonte de grande simbolismo, poder-se-á acrescentar que hoje o fruto reluz intocado por via do recurso a artificialismos, de pesticidas, de umas tais leis da paridade que visam o cumprimento de umas quotas obrigatórias. Que ofensivo retrocesso! Das duas uma, ou se faz um esforço e se avança, pela via natural, em direcção à igualdade ou corre-se o risco de perverter toda esta causa.
Liliana
Televisão ao domingo à noite...
Há 14 anos

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